Sempre que possível, gosto de dizer que
sou um realista, do tipo que não acredita
em filosofias positivistas e tenta sempre estar preparado para que algo dê
errado. Porém, há uma certa tendência
nos outros em confundir isso com pessimismo.
Tenho
convicção de que ser pessimista ou realista sejam ideologias deveras distintas.
Nunca desejo fracassar ou torcer pelo infortúnio próprio - apenas não descarto
a possibilidade de que a vida nem sempre está a meu favor. Até compreendo que
os mais otimistas considerem tal
perspectiva um tanto quanto negativa, mas, para mim, há uma diferença
muito grande.
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| Allejo, o rei do futebol em 16 bits |
Mas, quando se trata de um campeonato de videogame, a honra sempre fica em terceiro plano. Ainda moleque, frequentador assíduo das quase extintas locadoras que disponibilizam o acesso aos mais variados consoles por uma quantia modesta, aderi à febre. Mesmo tendo um SNES em casa, jogar contra a máquina (ou computador, como preferir) nunca era a mesma coisa. Não tenho intenção de discutir se é algo saudável ou não, mas definitivamente há um estranho prazer em vencer oponentes reais em uma partida de videogame. É um misto de euforia, alívio e completude, normalmente extravasado em forma de humilhação pública do adversário derrotado - exatamente como deve ser em uma atividade realizada entre amigos.
Pois bem, ao campeonato. O dono da locadora em que eu
passava boa parte do meu tempo resolveu organizar um torneio de International
Superstar Soccer, o qual atraiu rapidamente um grande número de participantes.
Não lembro qual era o prêmio; lembro apenas que a vontade de ganhar era grande.
Assim, passei a gastar horas dos meus despreocupados dias me preparando para a
disputa, treinando e tentando aprender todas as melhores táticas possíveis no
jogo.
Nisso tudo, surgiram inúmeros gols de bicicleta, ou então
com bolas que passavam magicamente entre as mãos do goleiro; tinha também os
dribles que desafiavam as leis da física, assim como os hilários chutes que
faziam curvas milagrosas. De qualquer forma, eu sentia que, cada vez mais,
estava preparado para o tal campeonato. Quanto mais a data se aproximava, mais
confiante eu estava - mesmo que não vencesse, ao menos daria trabalho para
muita gente.
Chegado o dia, encontrei a locadora cheia como nunca
antes. Diversos jogadores conversando empolgadamente sobre o evento, boa parte
deles figuras conhecidas do local, outros nem tanto. Logo começaram os boatos e
discussões sobre os favoritos, e o ambiente já tinha um ar completamente novo,
repleto de nervosismo e expectativa. Pouco depois, iniciaram-se as partidas. Alguns
começaram a confirmar seu favoritismo, mas uma surpresa ou outra ocorria
ocasionalmente. Quanto a mim, mantive-me confiante ao assistir aos outros jogos,
principalmente porque controlaria o Brasil, e venci com certa facilidade minha
primeira partida. O placar exato ficou para trás, mas, definitivamente, foi um
boa vitória.
| O embate decisivo |
Sim, 17 a 4. Tanto preparo para nada. Tanto treino para
nada. Logo no segundo desafio, não fui apenas derrotado, mas devidamente
humilhado. Me consolei um pouco ao ver que o jogador responsável por minha
eliminação ficou em segundo lugar, fazendo uma final disputadíssima com o
campeão (que, não por acaso, era seu irmão). Mas, ainda assim, fiquei um pouco decepcionado comigo mesmo.
Certamente seria exagero dizer que o evento na locadora
local fora o responsável pela maneira como penso hoje; não foi. Isso, contudo,
não reduz sua importância. Ali, no final da minha infância, com um pé na
adolescência, aquela foi uma derrota importante. Me ajudou perceber, junto com
outras vivências de períodos passados e futuros, que o otimismo só leva à
frustração. Hoje, minhas expectativas sempre começam baixas, e cada conquista
vem acompanhada de um leve sabor de surpresa. Não pretendo tentar lhe convencer
a pensar ou viver como eu, pois cada um é dono da verdade que mais lhe
satisfaz. Eu, porém, jamais esquecerei do dia em que Allejo, o mito, foi
massacrado pelo meio-campista alemão.


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