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sábado, 19 de julho de 2014

A batalha de Xigenon, parte 1

           Mais um dia começava. Fechando sua loja, Queen animava-se diante dos ganhos obtidos durante a noite. Os números não eram impressionantes, é verdade, mas o suficiente para comprar os suprimentos necessários e, quem sabe, tentar aprimorar um de seus equipamentos. Mas, no fim, isso não passava de uma distração; o que lhe importava mesmo ainda estava por vir.

Antes, porém, a Clériga parava para olhar os itens à venda no mercado. Espadas, amuletos e anéis mágicos; grande parte do que era vendido estava fora do seu orçamento. Em raras ocasiões, Queen permitia-se alguns luxos, noutras a sorte lhe empurrava algumas ofertas. Hoje, nada muito interessante. Nos entremeios, saudava os companheiros de clã, que respondiam cordialmente. Queen nunca fora boa em lidar com as pessoas, mas sobreviver sozinha no mundo caótico ao qual pertencia era uma tarefa árdua. Assim, resolvera um dia unir-se aqueles que lhe pareceram menos piores; e, no fundo, eram realmente boas pessoas.

Concluídas as saudações, Queen iniciou a caçada. Em Xigenon, dedicar tempo às caçadas era crucial, já que até mesmo os de sua própria nação eram, de certa forma, adversários; eis mais uma das heranças trazidas pela guerra. Relutante, Queen percorria todos os pontos necessários, pronta para convocar seus aliados caso encontrasse um Troll-Rei ou Talos, o gigantesco golem que habitava a parte gélida das terras. Caso o fizesse, chamar ajuda o mais rápido possível era imprescindível, já que era impossível derrotar criaturas dessa magnitude por conta própria. Hoje, porém, não teve sorte: não encontrara nenhum dos Temíveis. "Uma pena", pensava; "Um Cinturão da Força realmente me seria útil". A verdade é que, a cada dia, os orcs ficavam mais destemidos e aprimoravam seu arsenal de batalha. Queen, por sua vez, encontrava-se estagnada; há muito não encontrava um artefato que lhe aumentasse as capacidades de combater a incessante horda de orcs vinda de Karus. Vira alguns destes itens de perto nas últimas caçadas com o clã, mas como não era um membro de prestígio, outros acabaram recebendo o que ela tanto almejava. Contudo, nunca deixara de ter esperança, afinal dedicava-se tanto quanto os demais, de modo que logo deveria ser recompensada.

O próximo passo era adquirir os suprimentos necessários para as batalhas do dia. Seguiu para loja de poções e depois comprou alguns pergaminhos encantados. Lembrou-se também de guardar o restante do dinheiro em seu baú, afinal nem sempre saia vitoriosa dos combates, e o que menos queria era fortalecer ainda mais os inimigos deixando que lhe saqueassem o corpo atordoado em caso de derrota. Finalizados os preparativos, Queen partiu para Colony Zone, o campo de guerra permanente entre humanos e orcs.

Assustou-se: sem tempo para entender ou se defender, viu apenas um grupo de orcs. Liderados por um imenso guerreiro, portando uma braçadeira dourada e exibindo uma capa vermelha com o símbolo de seu clã, os inimigos invadiam a base da nação de El Morad. Nem mesmo as torres de segurança instaladas no local eram capazes de impedir o ataque. Recuperada do susto, correu rapidamente para o lado oposto aos ataques, bebendo algumas poções e utilizando suas magias de cura quase simultaneamente.

Talvez seja um bom momento para esclarecimentos: todos os combatentes de Xigenon, sejam orcs ou humanos, possuem certas habilidades especiais. No início havia apenas quatro caminhos a serem seguidos, mas, com o tempo, novas técnicas e maneiras de lutar foram desenvolvidas por combatentes experientes e audaciosos. Hoje, cada um dos quatro caminhos podem ser trilhados de diferentes formas. Há, por exemplo, os Guerreiros, homens-de-arma que utilizam a força bruta para aniquilar os adversários e aproveitam-se de seu impressionante vigor e resistência física para permanecerem vivos por longos períodos; os Rogues, por sua vez, especializaram-se de duas formas: enquanto alguns optam por dominar técnicas de subterfúgio e tornam-se mestres no uso de adagas, outros preferem manter-se afastados, perfurando inimigos de todas as maneiras possíveis com suas flechas que, quando não estão em chamas ou envenenadas, parecem fazer curvas no ar. Há também os Magos, que manipulam os elementos e fazem deles armas mortais. Seja com fogo, gelo ou relâmpago, esses feiticeiros são os únicos capazes de matar em massa através de temíveis invocações conhecidas como Supernovas, utilizadas principalmente nas grandes invasões. Por fim, alguns combatentes dedicam sua vida a salvar e proteger seus aliados, atendendo pela alcunha de Clérigos. Embora suas magias de cura sejam essenciais no campo de batalha, nem todos os Clérigos tornam-se peritos na prática: alguns aprenderam a manipular as forças vitais de maneira negativa, desenvolvendo maldições capazes de fazer o mais habilidoso dos Rogues errar constantemente seu alvo, ou então acabar com a resistência física de grupos inteiros. Muitos dos mestres dessa habilidade profana tornam-se verdadeiros assassinos, capazes de derrotar os adversários em apenas um ou dois golpes, porém sem perder totalmente sua capacidade de conjurar magias de restauração. Queen fazia parte desse grupo, e talvez fosse uma das Clérigas mais temidas de toda Xigenon.

A confusão era geral. Havia pelo menos uns 20 orcs, quase todos pertencendo ao maior e mais perigoso clã de Xigenon. Eram, em sua maioria, magos, como sempre acontecia nesse tipo de ataque. O som das Supernovas atingindo o solo era estrondoso, e o chão chegava a tremer com o impacto das invocações. A multidão de humanos tentava correr, mas os mais desatentos não tinham outra opção senão sucumbir à investida dos orcs. Enquanto alguns esgotavam seus pulmões proferindo ofensas aos inimigos, outros mais sensatos tentavam organizar um contra-ataque para cessar a invasão.

Queen, já recuperada, não conseguia esconder a empolgação. Conhecia o poder destrutivo dos Magos, mas sabia também o quanto eram frágeis. Além disso, o ódio que nutria pelas criaturas tirava-lhe a razão, de modo que ela resolveu contra-atacar: amaldiçoaria o maior número possível de orcs e faria uma vestida , concentrando seus golpes naqueles que lhe parecessem ter menos resistência física. Empunhou sua enorme espada, conjurou encantamentos de proteção e começou a executar o ataque. 
  
Quando já estava próxima ao grupo de orcs, começou a se sentir confiante: eles não a haviam notado. Resolveu de ímpeto invocar a Tormenta, maldição que deixaria todo o bando mais suscetível aos golpes de sua lâmina. Isso, porém, atraiu a atenção dos magos, que logo perceberam a ameaça e afastaram-se na direção oposta. O que se sucedeu, então, foi uma chuva de fogo, raios e blocos de gelo lançada na direção de Queen; a clériga ainda conseguiu desferir alguns golpes, e acabou derrubando um dos magos. Para ela, no entanto, um só não bastava, e a frustração invadiu seus pensamentos. Percebendo o fracasso, guardou a espada e pegou o escudo em suas costas; tratou de correr, bebendo poções e usando magias para se curar. Os orcs não a perseguiram, pois o alvo ainda era a base de El Morad. Assim, se recompôs  e, mais calma, reavaliou a situação: o momento exigia estratégia, e não bravura. Observou então que alguns humanos atacavam os orcs pelas costas, tentando pegá-los de surpresa. Alguns tinha sucesso, outros nem tanto; de qualquer forma, a alternativa lhe pareceu mais sensata, de modo que ela planejou seu novo ataque.

Contornou os muros que protegiam sua base e, quando estava prestes a lançar a primeira maldição no desatento grupo de orcs, recebeu uma mensagem exaltada: "DERUVISH FOUNDER!". O monstruoso arcano, um dos anciões da raça Deruvish que atacava o deserto de Esland, fora avistado por um de seus companheiros de clã. Queen cessou prontamente o ataque contra os orcs, que já começavam a demonstrar sinais de exaustão, e partiu para o deserto; partiu ao encontro do Deruvish Founder.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A fábula de Allejo

Atenção: Qualquer semelhança com os fatos ocorridos recentemente é mera coincidência. Afinal, meu trauma pessoal com uma seleção alemã já tem mais 15 anos.

Sempre que possível, gosto de dizer que sou um realista, do tipo que não  acredita em filosofias positivistas e tenta sempre estar preparado para que algo dê errado.  Porém, há uma certa tendência nos outros em confundir isso com pessimismo.

Tenho convicção de que ser pessimista ou realista sejam ideologias deveras distintas. Nunca desejo fracassar ou torcer pelo infortúnio próprio - apenas não descarto a possibilidade de que a vida nem sempre está a meu favor. Até compreendo que os mais otimistas considerem tal  perspectiva um tanto quanto negativa, mas, para mim, há uma diferença muito grande.


Independentemente dos ismos que lhe agradem, vamos a um fato: se você teve um Super Nintendo em algum momento de sua vida, é muito provável que o nome International Superstar Soccer lhe traga algumas lembranças. Com uma jogabilidade ímpar, gráficos de primeira e uma boa dose de lances absurdos (e sensacionais), o título da Konami virou uma verdadeira febre entre  jogadores de todas as idades, fãs de futebol ou não. Não à toa, seu legado permanece até hoje, e a internet segue imortalizando seu maior representante, o mito Allejo, das mais variadas e criativas formas.


Allejo, o rei do futebol em 16 bits
É fato também que todo jogo de videogame possui seus macetes, manhas e os mais diversos tipos de apelações. A crescente repercussão de grupos especializados em zerar jogos no menor intervalo de tempo possível é uma prova disso. Em International Superstar Soccer, jogar com o time de Allejo era, por si só, uma apelação - termo que, em seu mais puro significado gamístico, remete às formas mais baixas e desonrosas de se vencer um adversário.


Mas, quando se trata de um campeonato de videogame, a honra sempre fica em terceiro plano. Ainda moleque, frequentador assíduo das quase extintas locadoras que disponibilizam o acesso aos mais variados consoles por uma quantia modesta, aderi à febre. Mesmo tendo um SNES em casa, jogar contra a máquina (ou computador, como preferir) nunca era a mesma coisa. Não tenho intenção de discutir se é algo saudável ou não, mas definitivamente há um estranho prazer em vencer oponentes reais em uma partida de videogame.  É um misto de euforia, alívio e completude, normalmente extravasado em forma de humilhação pública do adversário derrotado - exatamente como deve ser em uma atividade realizada entre amigos.

Pois bem, ao campeonato. O dono da locadora em que eu passava boa parte do meu tempo resolveu organizar um torneio de International Superstar Soccer, o qual atraiu rapidamente um grande número de participantes. Não lembro qual era o prêmio; lembro apenas que a vontade de ganhar era grande. Assim, passei a gastar horas dos meus despreocupados dias me preparando para a disputa, treinando e tentando aprender todas as melhores táticas possíveis no jogo.

Nisso tudo, surgiram inúmeros gols de bicicleta, ou então com bolas que passavam magicamente entre as mãos do goleiro; tinha também os dribles que desafiavam as leis da física, assim como os hilários chutes que faziam curvas milagrosas. De qualquer forma, eu sentia que, cada vez mais, estava preparado para o tal campeonato. Quanto mais a data se aproximava, mais confiante eu estava - mesmo que não vencesse, ao menos daria trabalho para muita gente.

Chegado o dia, encontrei a locadora cheia como nunca antes. Diversos jogadores conversando empolgadamente sobre o evento, boa parte deles figuras conhecidas do local, outros nem tanto. Logo começaram os boatos e discussões sobre os favoritos, e o ambiente já tinha um ar completamente novo, repleto de nervosismo e expectativa. Pouco depois, iniciaram-se as partidas. Alguns começaram a confirmar seu favoritismo, mas uma surpresa ou outra ocorria ocasionalmente. Quanto a mim, mantive-me confiante ao assistir aos outros jogos, principalmente porque controlaria o Brasil, e venci com certa facilidade minha primeira partida. O placar exato ficou para trás, mas, definitivamente, foi um boa vitória.

O embate decisivo
Seguem os jogos, até que meu próximo desafio estava prestes a se iniciar. Para meu pesar, encontrei logo no segundo jogo um dos favoritos; cumprimentei-o com um sorriso nervoso, e ele, com uma calma irritante, fez o mesmo. A partida começou equilibrada, mas isso logo mudou. Mais do que eu, meu adversário mostrou a que veio. Em poucos minutos, Allejo e companhia perderam toda a sua glória. A Alemanha, com seu maldito meio-campista que insistia em fazer gols lá do meio do campo, venceu o Brasil por 17 a 4.

Sim, 17 a 4. Tanto preparo para nada. Tanto treino para nada. Logo no segundo desafio, não fui apenas derrotado, mas devidamente humilhado. Me consolei um pouco ao ver que o jogador responsável por minha eliminação ficou em segundo lugar, fazendo uma final disputadíssima com o campeão (que, não por acaso, era seu irmão). Mas, ainda assim, fiquei um pouco decepcionado comigo mesmo.

Certamente seria exagero dizer que o evento na locadora local fora o responsável pela maneira como penso hoje; não foi. Isso, contudo, não reduz sua importância. Ali, no final da minha infância, com um pé na adolescência, aquela foi uma derrota importante. Me ajudou perceber, junto com outras vivências de períodos passados e futuros, que o otimismo só leva à frustração. Hoje, minhas expectativas sempre começam baixas, e cada conquista vem acompanhada de um leve sabor de surpresa. Não pretendo tentar lhe convencer a pensar ou viver como eu, pois cada um é dono da verdade que mais lhe satisfaz. Eu, porém, jamais esquecerei do dia em que Allejo, o mito, foi massacrado pelo meio-campista alemão.