Mais um
dia começava. Fechando sua loja, Queen animava-se diante dos ganhos obtidos
durante a noite. Os números não eram impressionantes, é verdade, mas o
suficiente para comprar os suprimentos necessários e, quem sabe, tentar
aprimorar um de seus equipamentos. Mas, no fim, isso não passava de uma
distração; o que lhe importava mesmo ainda estava por vir.
Antes, porém, a Clériga parava para olhar os itens à venda no mercado. Espadas, amuletos e anéis mágicos; grande parte do que era vendido estava fora do seu orçamento. Em raras ocasiões, Queen permitia-se alguns luxos, noutras a sorte lhe empurrava algumas ofertas. Hoje, nada muito interessante. Nos entremeios, saudava os companheiros de clã, que respondiam cordialmente. Queen nunca fora boa em lidar com as pessoas, mas sobreviver sozinha no mundo caótico ao qual pertencia era uma tarefa árdua. Assim, resolvera um dia unir-se aqueles que lhe pareceram menos piores; e, no fundo, eram realmente boas pessoas.
Concluídas as saudações, Queen iniciou a caçada. Em Xigenon, dedicar tempo às caçadas era crucial, já que até mesmo os de sua própria nação eram, de certa forma, adversários; eis mais uma das heranças trazidas pela guerra. Relutante, Queen percorria todos os pontos necessários, pronta para convocar seus aliados caso encontrasse um Troll-Rei ou Talos, o gigantesco golem que habitava a parte gélida das terras. Caso o fizesse, chamar ajuda o mais rápido possível era imprescindível, já que era impossível derrotar criaturas dessa magnitude por conta própria. Hoje, porém, não teve sorte: não encontrara nenhum dos Temíveis. "Uma pena", pensava; "Um Cinturão da Força realmente me seria útil". A verdade é que, a cada dia, os orcs ficavam mais destemidos e aprimoravam seu arsenal de batalha. Queen, por sua vez, encontrava-se estagnada; há muito não encontrava um artefato que lhe aumentasse as capacidades de combater a incessante horda de orcs vinda de Karus. Vira alguns destes itens de perto nas últimas caçadas com o clã, mas como não era um membro de prestígio, outros acabaram recebendo o que ela tanto almejava. Contudo, nunca deixara de ter esperança, afinal dedicava-se tanto quanto os demais, de modo que logo deveria ser recompensada.
O próximo passo era adquirir os suprimentos necessários para as batalhas do dia. Seguiu para loja de poções e depois comprou alguns pergaminhos encantados. Lembrou-se também de guardar o restante do dinheiro em seu baú, afinal nem sempre saia vitoriosa dos combates, e o que menos queria era fortalecer ainda mais os inimigos deixando que lhe saqueassem o corpo atordoado em caso de derrota. Finalizados os preparativos, Queen partiu para Colony Zone, o campo de guerra permanente entre humanos e orcs.
Assustou-se: sem tempo para entender ou se defender, viu apenas um grupo de orcs. Liderados por um imenso guerreiro, portando uma braçadeira dourada e exibindo uma capa vermelha com o símbolo de seu clã, os inimigos invadiam a base da nação de El Morad. Nem mesmo as torres de segurança instaladas no local eram capazes de impedir o ataque. Recuperada do susto, correu rapidamente para o lado oposto aos ataques, bebendo algumas poções e utilizando suas magias de cura quase simultaneamente.
Talvez seja um bom momento para esclarecimentos: todos os combatentes de Xigenon, sejam orcs ou humanos, possuem certas habilidades especiais. No início havia apenas quatro caminhos a serem seguidos, mas, com o tempo, novas técnicas e maneiras de lutar foram desenvolvidas por combatentes experientes e audaciosos. Hoje, cada um dos quatro caminhos podem ser trilhados de diferentes formas. Há, por exemplo, os Guerreiros, homens-de-arma que utilizam a força bruta para aniquilar os adversários e aproveitam-se de seu impressionante vigor e resistência física para permanecerem vivos por longos períodos; os Rogues, por sua vez, especializaram-se de duas formas: enquanto alguns optam por dominar técnicas de subterfúgio e tornam-se mestres no uso de adagas, outros preferem manter-se afastados, perfurando inimigos de todas as maneiras possíveis com suas flechas que, quando não estão em chamas ou envenenadas, parecem fazer curvas no ar. Há também os Magos, que manipulam os elementos e fazem deles armas mortais. Seja com fogo, gelo ou relâmpago, esses feiticeiros são os únicos capazes de matar em massa através de temíveis invocações conhecidas como Supernovas, utilizadas principalmente nas grandes invasões. Por fim, alguns combatentes dedicam sua vida a salvar e proteger seus aliados, atendendo pela alcunha de Clérigos. Embora suas magias de cura sejam essenciais no campo de batalha, nem todos os Clérigos tornam-se peritos na prática: alguns aprenderam a manipular as forças vitais de maneira negativa, desenvolvendo maldições capazes de fazer o mais habilidoso dos Rogues errar constantemente seu alvo, ou então acabar com a resistência física de grupos inteiros. Muitos dos mestres dessa habilidade profana tornam-se verdadeiros assassinos, capazes de derrotar os adversários em apenas um ou dois golpes, porém sem perder totalmente sua capacidade de conjurar magias de restauração. Queen fazia parte desse grupo, e talvez fosse uma das Clérigas mais temidas de toda Xigenon.
A confusão era geral. Havia pelo menos uns 20 orcs, quase todos pertencendo ao maior e mais perigoso clã de Xigenon. Eram, em sua maioria, magos, como sempre acontecia nesse tipo de ataque. O som das Supernovas atingindo o solo era estrondoso, e o chão chegava a tremer com o impacto das invocações. A multidão de humanos tentava correr, mas os mais desatentos não tinham outra opção senão sucumbir à investida dos orcs. Enquanto alguns esgotavam seus pulmões proferindo ofensas aos inimigos, outros mais sensatos tentavam organizar um contra-ataque para cessar a invasão.
Queen,
já recuperada, não conseguia esconder a empolgação. Conhecia o poder destrutivo
dos Magos, mas sabia também o quanto eram frágeis. Além disso, o ódio que nutria
pelas criaturas tirava-lhe a razão, de modo que ela resolveu contra-atacar: amaldiçoaria
o maior número possível de orcs e faria uma vestida , concentrando seus golpes naqueles
que lhe parecessem ter menos resistência física. Empunhou sua enorme espada, conjurou
encantamentos de proteção e começou a executar o ataque.
Quando já estava próxima ao grupo de orcs, começou a se sentir confiante: eles não a haviam notado. Resolveu de ímpeto invocar a Tormenta, maldição que deixaria todo o bando mais suscetível aos golpes de sua lâmina. Isso, porém, atraiu a atenção dos magos, que logo perceberam a ameaça e afastaram-se na direção oposta. O que se sucedeu, então, foi uma chuva de fogo, raios e blocos de gelo lançada na direção de Queen; a clériga ainda conseguiu desferir alguns golpes, e acabou derrubando um dos magos. Para ela, no entanto, um só não bastava, e a frustração invadiu seus pensamentos. Percebendo o fracasso, guardou a espada e pegou o escudo em suas costas; tratou de correr, bebendo poções e usando magias para se curar. Os orcs não a perseguiram, pois o alvo ainda era a base de El Morad. Assim, se recompôs e, mais calma, reavaliou a situação: o momento exigia estratégia, e não bravura. Observou então que alguns humanos atacavam os orcs pelas costas, tentando pegá-los de surpresa. Alguns tinha sucesso, outros nem tanto; de qualquer forma, a alternativa lhe pareceu mais sensata, de modo que ela planejou seu novo ataque.
Quando já estava próxima ao grupo de orcs, começou a se sentir confiante: eles não a haviam notado. Resolveu de ímpeto invocar a Tormenta, maldição que deixaria todo o bando mais suscetível aos golpes de sua lâmina. Isso, porém, atraiu a atenção dos magos, que logo perceberam a ameaça e afastaram-se na direção oposta. O que se sucedeu, então, foi uma chuva de fogo, raios e blocos de gelo lançada na direção de Queen; a clériga ainda conseguiu desferir alguns golpes, e acabou derrubando um dos magos. Para ela, no entanto, um só não bastava, e a frustração invadiu seus pensamentos. Percebendo o fracasso, guardou a espada e pegou o escudo em suas costas; tratou de correr, bebendo poções e usando magias para se curar. Os orcs não a perseguiram, pois o alvo ainda era a base de El Morad. Assim, se recompôs e, mais calma, reavaliou a situação: o momento exigia estratégia, e não bravura. Observou então que alguns humanos atacavam os orcs pelas costas, tentando pegá-los de surpresa. Alguns tinha sucesso, outros nem tanto; de qualquer forma, a alternativa lhe pareceu mais sensata, de modo que ela planejou seu novo ataque.
Contornou os muros que protegiam sua
base e, quando estava prestes a lançar a primeira maldição no desatento grupo
de orcs, recebeu uma mensagem exaltada: "DERUVISH FOUNDER!". O
monstruoso arcano, um dos anciões da raça Deruvish que atacava o deserto de Esland,
fora avistado por um de seus companheiros de clã. Queen cessou prontamente o
ataque contra os orcs, que já começavam a demonstrar sinais de exaustão, e
partiu para o deserto; partiu ao encontro do Deruvish Founder.
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